notas sobre princess nokia.

Damy Coelho
6 min readJun 15, 2018

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(Reprodução/Youtube)

Eu sou completamente encantada pela Princess Nokia, por assim dizer. Ela é minha nova diva pop favorita (enquanto Beyoncé e Rihanna permanecerem em férias estendidas). Tudo nela me encanta: a personalidade forte, as letras diretas, o estilinho bem anos 90 e especialmente a mensagem feminista que ela passa pra muitas garotas, se apropriando de discursos do punk feminino e do riot grrrl de uma forma bastante interessante (mesmo enquanto comanda um show de rap). Aliás, a coletânea de influências que transparece em sua música — das mais variadas possíveis — é outro aspecto à parte do qual vou me ater adiante. Empolgação parecida só fui ter anos atrás com a Lana Del Rey (por favor permita-me explicar¹), especialmente naquela fase Hope Sandoval do Ultraviolence em que ela “queria estar morta” (mas a persona fúnebre com apelo sadcore foi enterrada tão rápido quanto a Avril Lavigne pós-plástica da teoria conspiratória).

Princess Nokia, não. Ela tem múltiplas personas e não as enterra na primeira oportunidade, pelo contrário: se a apropria de cada uma delas ao mesmo tempo, ainda que deixe uma ou outra sobressair a cada novo trabalho.

Primeiro, introduzo minha nova diva a quem não a conheça: Princess Nokia é pseudônimo de Destiny Frasqueri, uma nova-iorquina de 26 anos e descendência porto-riquinha, que nasceu e cresceu na periferia de Nova York e começou a cantar nos bares queer da cidade. Lançou dois discos de repercussão considerável (para o bem ou para o mal), sendo o primeiro (1992) um consistente álbum de rap que retoma as raízes da geração dos anos 90, queridinho das críticas musicais e favorito de 10 entre 10 leitores da Vice, enquanto o segundo seguiu por um caminho arriscado, portanto, incompreendido.

Claro que eu amei. Mas depois entro nesse tópico.

Sua história é carregada de raízes entrepostas e ela as revisita muito apropriadamente ao longo da sua curta trajetória musical. Acho que foi isso o que mais me pegou: em 1992, a cantora revisita da Brooklyn dos anos 1970, com disco music, paetês e black power, nos primórdios do hip hop, estilo musical que evoca suas raízes africanas — e que ela também exalta.

Só que, no mesmo álbum e na mesma Brooklyn, ela também dá um salto no tempo, lá pros meios dos anos 2000. Essa condensação de épocas tão distintas em um mesmo disco transparece na estética dos clipes. Neles, a cantora retoma a sua juventude no ensino médio, enquanto ouvia Sublime² ou Slipknot³ no discman, matava aula pra fumar um com as amigas ou corria da polícia que revistava os jovens negros que desciam nas estações mais centrais do metrô.

Em suas músicas, Destiny se apresenta como aquela garota desajustada da escola, inteligente, interessante, mas que prefere ler sua revista em quadrinhos do que prestar atenção na aula de química — a nerdy girl with nymphomaniac tendencies. Ok, qualquer semelhança com a persona sexy, cool, lolita e selvagem já explorada por 10 entre 10 artistas pop não é mera coincidência. Mas não foi essa pessoa que a gente quis ser quando tinha 11 anos e assistia aos clipes das Spice Girls ou da Avril Lavigne na MTV? A sua retomada à adolescência me parece ainda mais fiel analisando por este prisma.

E é justamente Avril Lavigne quem ela retoma como grande influência no seu último EP, A Girl Cried Red. Ela aparece ali, junto a outros ídolos que também foram nossos (especialmente se estou falando pra alguém que nasceu no início dos anos 90, como eu).

Porém, para a decepção de muitos fãs, o novo trabalho nada tem a ver com o 1992 — ou melhor, seria uma espécie de consequência inesperada, caminho mais tortuoso (e não menos interessante) que ela optou seguir. O rap ainda está na essência, mas se funde a outro gênero que acaba se tornando o pilar de todo o disco: o emo. Sim, meus amigos.

O emo ainda vive.

“Nada que os sadboys já não tenham feito antes”, talvez você venha me dizer. Mas acontece que, ao contrário dos garotos que fazem trap com telecasters chorosas, Princess Nokia abdica dos programinhas de fazer beat para trazer a guitarra de novo ao protagonismo, de uma forma mais ousada e interessante. (Além disso, ainda tem o fato de ela ter mais que 22 anos e, ao contrário de muitos ~sadboys novinhos, realmente ter vivido a constrangedora fase dos all stars quadriculados de canetas bic, franjas mal cortadas e pôsters do Green Day na parede).

Toda essa miscelânea de influências e raízes e esse aspecto cravado na retomada da memória utilizados por Princess Nokia me encantam. Por pura identificação, principalmente. Talvez porque, próximo aos meus trinta anos, eu também sinta o desejo (mais que necessidade) de visitar o passado e reencontrar uma outra essência particular mais pura de mim mesma, não tão atravessada por outros discursos, para entender melhor a minha própria trajetória, o que me trouxe até aqui e por onde vou me guiar. Uso dessa autorreferência e desse mergulho em rastros de outros eus que deixei no passado para me inspirar tanto na minha pesquisa — que mergulha fundo na minha nostalgia — quanto na minha forma de ver o mundo. Acho que falo de uma experiência mais coletiva que individual, talvez vocês possam me entender.

Para além da mesma essência (re) inventiva que permeia vários dos meus ídolos — caráter que mais me chamou a atenção na música da Princess Nokia — é o fato de ela não nos decepcionar no seu discurso, ao contrário de outras cantoras que também conversam com um público mais jovem. Suas letras e sua postura nas entrevistas (sério, vejam!) são carregadas pela bandeira do feminismo, do movimento negro, dos imigrantes, dos latinos — simplesmente porque ela é uma mulher de fato cosmopolita, cuja essência perpassa por todas essas múltiplas identidades. Além disso, sua forma de composição é simples e direta, sem maiores metáforas, num discurso cravado pelo cotidiano. Ela conta que gosta de se sentar em algum café ou no Central Park e observar a rotina daquelas pessoas tão comuns como ela mesma, numa crônica de Nova York mais fiel que a de Carrie Bradshow em Sex And The City.

Princess Nokia representa legitimamente uma geração millennial, que cresceu entre as fitas cassete e a internet 4g; e que é atravessada pelas mais diversas influências e se apropria dos mais diversos espaços culturais. Ela dá voz a cada uma dessas personas, num perfil de artista que eu acho talvez o mais interessante mas (justamente por se permitir ousar demais) cada vez mais em extinção.

P.S: acabo de descobrir que a Destiny faz aniversário no dia em que publico este texto, veja só que coincidência (!). Logo, a fofa é geminiana. Acho que tá explicado, né? 😂

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¹ Estou ciente que Lana Del Rey foi responsável por criar boa parte de uma estética pop tristonha e lamentável apropriada de forma muito torta por algumas celebridades (rs), mas tenho uma relação afetuosa por ela, por assim dizer. Me deem licença de apelar para o meu ego: em 2011, fui a primeira jornalista a publicar uma resenha sobre a Lana Del Rey no Brasil, ainda como uma estagiária novinha da Revista Ragga. Lembro que ouvi Blue Jeans, vi aquela coroa de flores na cabeça (que um dia foi mais exótico do que brega), aquela estética Nancy Sinatra dentro de uma menina que queria cantar hip hop, e pensei que aquele ~frescor vintage ~ era tudo o que o pop precisava naquele momento. Sou ariana, desculpa, eu empolgo fácil com as coisas. Pra além de tudo isso, eu realmente gosto do Ultraviolence e confesso que devo ter chorado um pouquinho quando ela tocou Black Beauty no Lollapalooza. (Sobre a matéria que fiz da Lana, infelizmente, ela não existe mais — assim como a revista — o faz com que essa minha história não tenha a mínima possibilidade de comprovação).

² Ver: https://www.youtube.com/watch?v=7ylQIxDCgXk

³ https://www.youtube.com/watch?v=87Cjow9lO2U

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Damy Coelho

Jornalista, Bacharel em Letras, pesquisadora em música sertaneja/feminejo. Ex Revista Ragga, Alto-Falante, Cifra Club e Palco MP3.