Searching and destroy: Fernando Motta lança seu terceiro álbum inspirado pela necessidade de rupturas

Álbum conta com participações de Apeles, Mafius (Agito Apático/e6c41), João Viegas (Raça / Ombu) e produção assinada por Vitor Brauer (Lupe de Lupe/ Xóõ / Desgraça/ Ginge)

Damy Coelho
4 min readMar 23, 2021
(Arthur Lahoz/Divulgação)

Ensaio Pra Destruir (2021) representa uma transição na discografia de Fernando Motta que passa tanto pela sonoridade quanto pela temática de suas composições.

Riffs contagiantes e acessíveis se somam por vezes a guitarras ruidosas e vocais atmosféricos, remontando ao shoegaze e ao dream pop que conquistaram os primeiros fãs do artista. Tridimensional, primeira música de trabalho do álbum, lançada pela Balaclava Records, e Elogio à Destruição, representam bem esses dois diferentes estágios sonoros.

Porém, é a temática das composições que ganha foco: se nos álbuns anteriores de Fernando Motta, Andando Sem Olhar Pra Frente (2016) e Desde que o Mundo é Cego (2017), eram predominantes cenários etéreos como o céu, a escuridão da noite ou planos como nuvens, em Ensaio Pra Destruir esses elementos ainda aparecem, mas de forma mais concreta e tangível. Um exemplo é a delicada Salvo Engano, com participação de Apeles: “enxergo acima desse degrau/um túnel de algodão/retrocedo e pairo feito/pluma de volta pro chão”.

É como o despertar abrupto de um sonho estranho, quando acordar se torna, enfim, um alívio. Em outras palavras, não há tempo para a nostalgia dolorosa e ao mesmo tempo confortável quando o futuro está cada vez mais próximo — e incerto. Neste ponto, não há como não lembrar do EP Lapso (2019), de Fernando Motta e Eliminadorzinho, que já adiantava algumas dessas inquietações.

ensaio

sm

1 Ação ou efeito de ensaiar.

2 Teste ou experiência.

3 Ação ou efeito de testar algo sem conhecer o resultado final.

4 DANÇA, MÚS, TEAT Montagem experimental para se obter a perfeita execução e unidade antes da apresentação ao público (ER).

(Fonte: Dicionário Michaelis)

Já o ensaio, no álbum de Fernando Motta, remete a uma percepção de si diante dos conflitos — compreende-se o que não quer ser e onde não se quer estar. Prepara-se para algo que vai estourar em breve, não se sabe ao certo o quê ou quando. E isso não necessariamente importa, uma vez que já se abriu os olhos.

O momento de epifania começa logo na primeira faixa, Insetos Rondam a Luz Acesa, com participação do artista mineiro Mafius: a percepção de que é preciso agir contra tudo aquilo (ou aqueles) que não constroem é tomada enquanto observa-se a cena tão banal quanto poética do título. A busca pela luz é, ao mesmo tempo, autodestrutiva e necessária — é o caminho a ser tomado para poder viver, é partir para tudo ou nada: “o ensaio pra destruir é o sobressalto que me acende”.

Logo depois, surge uma das músicas mais vibrantes do álbum, com influência direta do sadcore e do shoegaze, Essa Cidade Não Existe. A cidade tem nome e raízes fincadas: “Nunca houve chance de sair. Belo Horizonte não existe”. A ruptura é necessária e colocada em discussão. Essa quebra pode ser relacionada a pessoas e lugares: com a cidade do tédio dos anos de Drummond ou até em discordância com o cenário político do país, que constrange, oprime e sufoca.

O jogo com a memória, importante simbologia nas composições de Fernando Motta, é problematizado em faixas como Contraditória II: “já não me lembro de quase nada do que li”. Tudo que se aprendeu até aqui. Pra quê? E, ao mesmo tempo: “Queria me interessar menos”. Já em Perfeição, com participação de João Viegas, das bandas Raça e Ombu, a melodia etérea remete a um sonho lúcido, quase epifânico, daqueles que ocorrem no estágio de sono mais profundo, não por acaso, fase importante para o processamento de construção memória.

Uma ruptura nesse processo de destruição, porém, se dá nas duas músicas que funcionam como respiro para o disco. Em Valsa de Outono e Verde-Água, o desejo de congelar o espaço-tempo através de um momento de delicadeza é o que chama a atenção. Ainda há onde se apegar, afinal. Ainda há quem traga força e alguma ternura diante do caos.

Assim como em Andando sem olhar pra frente (2016), que se encerra com a faixa Paris, Texas, o novo álbum também termina com uma referência ao cinema: Oslo, 31 é a tentativa final de ruptura com uma reflexão sobre si mesmo. Diante do momento de estalo, opta-se por uma fuga — ou somente uma busca pela calma do pensamento sempre inquieto: “levo a remissão sob a língua que desmancha a me acalmar”. Em um aspecto mais geral, o álbum em certo ponto se conecta com a narrativa do filme de Joachim Trier, especialmente ao romper com uma visão romântica das pessoas que se conhece ou da cidade onde se vive. Oslo parece tão inóspita quanto Belo Horizonte: se uma não apresenta um horizonte de esperança, a outra também parece diferente de quando foi encarada pela primeira vez. Cabe citar uma das frases iniciais do filme: “lembro-me do gosto de ser livre quando cheguei em Oslo — até perceber que era uma cidade tão pequena”.

Talvez não haja para onde correr, talvez o futuro pareça muito distante, talvez olhar para frente possa ser, ainda, dolorido. Mas Ensaio Pra Destruir passa uma outra mensagem a quem ouve, de que destruir é necessário para se (re) construir.

Mais uma vez, a trajetória é mais importante que o destino: logo, o ensaio é tão forte quanto a própria destruição.

*Texto de divulgação do álbum Ensaio Para Destruir

Ouça no YouTube ou Spotify.

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Damy Coelho

Jornalista, Bacharel em Letras, pesquisadora em música sertaneja/feminejo. Ex Revista Ragga, Alto-Falante, Cifra Club e Palco MP3.